Vida é movimento. O corpo humano se movimenta enquanto possui vida; é óbvio, do contrário começa a morrer. O economista sexual W. Reich foi quem descobriu que, ao impedir os movimentos naturais do corpo por causa de repressões sofridas, o indivíduo começa a produzir o que ele chamava de couraça no caráter, que tinha reflexos no organismo, provocando inúmeras doenças.
Uma das formas de libertação dessa couraça é a arte da dança. Ao dançar, o corpo volta a se movimentar, provocando maior circulação sanguínea, aquecimento muscular e relaxamento dos nervos, além dele ficar em posições inusitadas. Dança é libertação. É o meio do povo se expressar, mostrando a beleza de seu corpo, tão oprimido...
Os descendentes de africanos em Piracicaba preservam uma espécie de dança peculiar - o batuque de umbigada. A umbigada tinha (e tem ainda) um caráter festivo, no sentido de congregar a comunidade, de unir aqueles que trabalhavam arduamente durante o dia nas lavouras de café, no tempo da escravidão, para comemorarem à noite. Houve uma grande diminuição da prática da umbigada, com as gerações mais jovens sendo influenciadas por outras culturas, estrangeiras e urbanas. Ela não era praticada por crianças, com certeza porque nas matrizes africanas era uma dança ligada aos ritos matrimoniais. Isso em parte explica seu declínio.
Entretanto, existe um grupo infanto-juvenil que não deixa a umbigada se extinguir, sendo eles os maiores propagadores. Orientados pela professora Márcia Antonio, formam o “Grupo de Batuque de Umbigada Tio Tonho”, sendo ela também um dos coordenadores da Associação Cultural Vila África (ver matéria da Tribuna de 25/9), se apresentam em vários lugares, fazendo o povo conhecer os costumes locais, e os próprios afro-brasileiros resgatarem sua identidade.
É dessas iniciativas que a sociedade está precisando, tal como o corpo doente precisa de saúde.
(Publicado na Tribuna Piracicabana em out/2004)
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