E Deus veio até mim numa noite fria, escura, sem lua, sem vento, sem
sereno, e disse:
- Carlos, seu relês
mortal, como poderia supor que eu não gostasse de você? Que presunção, pecador
abjeto; eu simplesmente o desprezo, nada mais.
Então percebi naquele instante único que Deus era onisciente, pois havia
ouvido meus pensamentos quando no fundo de minhas conjeturas lamentei momentos
aziagos, os quais não via procedimento por mim adotado que pudesse
ocasioná-los, vindo a deduzir ser isso não coincidência, mas obra de um gênio
superior maligno e sádico. E uma sarça ardeu em chamas avermelhadas sob o tom
baritonal da voz divina, forte, colérica e com hálito de álcool:
- Vocês, humanos... Sempre com essa idéia maniqueísta. Veja bem, eu sou
Deus, mas não sou perfeito... Posso mandar um anjo especialmente paramentado
pelos desígnios que movem adiante o Cosmo no tempo e no espaço, com a tosca
finalidade inútil de testar uma tese que formulei sobre os motivos da depressão
no mundo cristão ocidental, causando em vastas
populações misérias naturais como a seca, a enchente, o terremoto, o
maremoto, o macaréu, o tufão, a erupção vulcânica, o tornado, o furacão, a
peste, ou em indivíduos e seus familiares horrores locais como o raio, o
afogamento, o deslizamento de terras, o natimorto, o down, o cego, o
surdo mudo, a paralisia, os cânceres generalizados, sem que com todos esses
acontecimentos horripilantes deixem as galáxias de girarem velozmente cumprindo
suas sinas de perseguir o Nada. Ora, meu caro... Aliás, ora, ora muito, e
suplica bens e clemência, conforme a situação, no interior subjetivo de cada
oração sombria e assombrada que sua desesperança contrita formular... Mas,
voltando ao assunto, que fique definido de agora em diante que a sua vidinha
infeliz não influencia na grande obra divina da criação e no sucesso total
dessa minha empreitada, que obtenho por antecipação, já que tudo posso.
Inclusive não coloco meu dedo na maioria das coisas, como poderia e como você
imagina que faço, mas deixo tudo rolar muito à vontade; laisse faire, mon
ami.
E neste momento Deus confirmou com suas próprias palavras, que era
onipotente, ainda que não houvesse provado isso de forma empírica, fato que não
ousei, trêmulo e já de joelhos, solicitar, visto seu alterado estado de
espírito, ou seja, estado de Espírito Santo. Mas dentro de mim, aquecida por
uma chama viva, retumbava a alegria devota e fervorosa perdida nos anos
adolescentes, e que era tão pura, linda e feliz na aurora de minha vida, isto
é, na minha infância longínqua, que o tempo deixou para trás, onde lia Casemiro
de Abreu pendurado nos galhos da jabuticabeira e ouvindo o auto falante da
Paróquia Santa Catarina executar a “Ave Maria” de Shubert num entardecer
de verão tão, mas tão bucólico e ou romântico, ou árcade, ou parnasiano, que
sentia dentro de mim o Sagrado Coração de Maria, a Sagrada Família, o Divino
Espírito Santo, a Santa Missa, a Santa Igreja Católica, a Comunhão dos Santos,
a remissão dos pecados et coe tara, et coe tara et misterium tremendum.
De algum modo a onipotência divina me tornava um poeta onipotente.
E tendo entornado a garrafa de vinho do Porto que trazia, soprou Deus
contra as nuvens, e elas se agitaram em perigoso vendaval que rumou para o
cerrado brasileiro na missão de ali fazer temporal que apagaria princípio de
incêndio destruidor da fauna e da flora do lugar. E já falando mole, Deus
cambaleou perigosamente para junto da sarça ardente, chegando a chamuscar seu pullover:
- Sabe Carlinhos, eu gosto
muito, mas muito mesmo, do Planalto Central. Eu curto ficar ali, de madrugada,
vendo os discos voadores pousando para reparos, para pesquisas, para missões de
paz que eu mesmo determino, e para segurar o ímpeto destruidor dos políticos
brasileiros. Foi para isto que convenci Juscelino a mudar o Distrito Federal de
lugar. Ali posso controlar de modo místico o destino do meu país, que poderia
ter se transformado numa potência econômica e militar, mas já teria destruído
todas as belezas naturais que possui, como o pantanal, a bacia amazônica, o São
Francisco, o litoral nordestino, a Serra do Cachimbo, a Ilha de Bananal, as
praias de São Sebastião e a terra onde nasci – a Chapada Diamantina. Neste
caso, confesso que intervi quase que tiranicamente em prol do interesses do meu
coração. No fundo, eu sou uma boa pessoa.
E eis que a maior
revelação da noite para os brasileiros de devoção irrepreensível estava ali
feita: Deus era brasileiro, apesar de Belém não ser sua terra natal, não sendo
natal de Belém de Judá, nem natal de Natal – RN. Isto posto, sua qualidade de
onipresença nem parecia tão extraordinária, não obstante ele estivesse a todo o
momento chamando milhares de querubins para enviá-los a incontáveis rincões do
Universo na empreitada de conduzir a criação a seu contento. E já que Deus
tinha se aberto tão francamente comigo – eu, um Zé Mané de mal com Deus e o
Mundo – enchi-me de coragem, ou presunção, não sei, e lhe perguntei pronto para
engolir um sapo ou tomar coisa pior, enquanto Deus Abria outro garrafão:
- Meu Senhor, já que não faço parte fundamental no plano da
criação, e levo essa vidinha que não desejo nem aos meus inimigos, o que
custaria a vossa divina providência acabar de vez com a minha raça, ou então
dar uma forcinha para a minha vida melhorar, já que eu canto forte e alto(2).
Deus desviou o olhar do rótulo que tinha em mãos, apontou uma taça cheia
de líquido rubro que por magia apareceu em minhas mãos cheias de um suor gelado
que era fabricado no interior do próprio superego(3), ou não, e
ordenou lacônico e brando:
-
Beba.
Tinha àquele momento o olhar lentificado e sonolento das madrugadas
festivas e etílicas, e enquanto observava um Deus resmungando poemas de Caeiro
ou dos irmãos Campos, sorvi do vinho que estava na taça e notei que era um Concha
Y Tóro. E Deus, sorrindo, me disse apoiado em Miguel:
-
Incentivemos a Indústria vinícola latino americana!
E, ao som de Margareth Menezes, Deus começou a dançar e rodopiar
acompanhado de anjos negros masculinos, músicos, que tocavam instrumentos da
percussão afro-brasileira, carros alegóricos com mulheres fantasiadas de seres
da mitologia indígena, um trio elétrico onde Lennon e Harrison
tocavam guitarra e cantavam e anjas adolescentes requebrando com sensualidade
erótica e muito humana logo à minha frente, uma das quais parecida com uma
morena que conheci na sexta série, mas que nunca consegui conquistar, e que
involuntariamente puxei para dançar comigo, até que começamos a nos beijar, e
nos despindo, fizemos amor ao lado da sarça que agora eram somente brasas, e
adormecemos abraçados ali, sendo que acordei uma hora depois, verificando que a
música havia cessado, a bebida havia acabado, o fogo inexistia e estavam todos desacordados,
inclusive Deus. Então saí daquele lugar e fui ver o dia nascer do alto de uma
colina.
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(1) Este conto foi gestado há uns 10 anos com o intuito de participar de um concurso. Não me lembro se enviei, mas se enviei, não ganhei, portanto ele era inédito até agora.
(2) Referência ao pagode de Martinho da Vila – “Canta canta, minha gente” (N.A.)
(2) Referência ao pagode de Martinho da Vila – “Canta canta, minha gente” (N.A.)
(3) “
Superego: é a parte do psiquismo que impede, ameaça, pune, produz inibições e
ansiedades, todas as vezes que o Ego se dispõe a aceitar os impulsos do Id”
Nuttin, J. Psicanálise e Personalidade, ed. Agir. 1967.” (N.A.)
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