quinta-feira, setembro 06, 2012

ALGO RETIRADO DO VELHO TESTAMENTO (1)



E Deus veio até mim numa noite fria, escura, sem lua, sem vento, sem sereno, e disse:
- Carlos, seu relês mortal, como poderia supor que eu não gostasse de você? Que presunção, pecador abjeto; eu simplesmente o desprezo, nada mais.
Então percebi naquele instante único que Deus era onisciente, pois havia ouvido meus pensamentos quando no fundo de minhas conjeturas lamentei momentos aziagos, os quais não via procedimento por mim adotado que pudesse ocasioná-los, vindo a deduzir ser isso não coincidência, mas obra de um gênio superior maligno e sádico. E uma sarça ardeu em chamas avermelhadas sob o tom baritonal da voz divina, forte, colérica e com hálito de álcool:
- Vocês, humanos... Sempre com essa idéia maniqueísta. Veja bem, eu sou Deus, mas não sou perfeito... Posso mandar um anjo especialmente paramentado pelos desígnios que movem adiante o Cosmo no tempo e no espaço, com a tosca finalidade inútil de testar uma tese que formulei sobre os motivos da depressão no mundo cristão ocidental, causando em vastas  populações misérias naturais como a seca, a enchente, o terremoto, o maremoto, o macaréu, o tufão, a erupção vulcânica, o tornado, o furacão, a peste, ou em indivíduos e seus familiares horrores locais como o raio, o afogamento, o deslizamento de terras, o natimorto, o down, o cego, o surdo mudo, a paralisia, os cânceres generalizados, sem que com todos esses acontecimentos horripilantes deixem as galáxias de girarem velozmente cumprindo suas sinas de perseguir o Nada. Ora, meu caro... Aliás, ora, ora muito, e suplica bens e clemência, conforme a situação, no interior subjetivo de cada oração sombria e assombrada que sua desesperança contrita formular... Mas, voltando ao assunto, que fique definido de agora em diante que a sua vidinha infeliz não influencia na grande obra divina da criação e no sucesso total dessa minha empreitada, que obtenho por antecipação, já que tudo posso. Inclusive não coloco meu dedo na maioria das coisas, como poderia e como você imagina que faço, mas deixo tudo rolar muito à vontade; laisse faire, mon ami.
E neste momento Deus confirmou com suas próprias palavras, que era onipotente, ainda que não houvesse provado isso de forma empírica, fato que não ousei, trêmulo e já de joelhos, solicitar, visto seu alterado estado de espírito, ou seja, estado de Espírito Santo. Mas dentro de mim, aquecida por uma chama viva, retumbava a alegria devota e fervorosa perdida nos anos adolescentes, e que era tão pura, linda e feliz na aurora de minha vida, isto é, na minha infância longínqua, que o tempo deixou para trás, onde lia Casemiro de Abreu pendurado nos galhos da jabuticabeira e ouvindo o auto falante da Paróquia Santa Catarina executar a “Ave Maria” de Shubert num entardecer de verão tão, mas tão bucólico e ou romântico, ou árcade, ou parnasiano, que sentia dentro de mim o Sagrado Coração de Maria, a Sagrada Família, o Divino Espírito Santo, a Santa Missa, a Santa Igreja Católica, a Comunhão dos Santos, a remissão dos pecados et coe tara, et coe tara et misterium tremendum. De algum modo a onipotência divina me tornava um poeta onipotente.
E tendo entornado a garrafa de vinho do Porto que trazia, soprou Deus contra as nuvens, e elas se agitaram em perigoso vendaval que rumou para o cerrado brasileiro na missão de ali fazer temporal que apagaria princípio de incêndio destruidor da fauna e da flora do lugar. E já falando mole, Deus cambaleou perigosamente para junto da sarça ardente, chegando a chamuscar seu pullover:
- Sabe Carlinhos, eu gosto muito, mas muito mesmo, do Planalto Central. Eu curto ficar ali, de madrugada, vendo os discos voadores pousando para reparos, para pesquisas, para missões de paz que eu mesmo determino, e para segurar o ímpeto destruidor dos políticos brasileiros. Foi para isto que convenci Juscelino a mudar o Distrito Federal de lugar. Ali posso controlar de modo místico o destino do meu país, que poderia ter se transformado numa potência econômica e militar, mas já teria destruído todas as belezas naturais que possui, como o pantanal, a bacia amazônica, o São Francisco, o litoral nordestino, a Serra do Cachimbo, a Ilha de Bananal, as praias de São Sebastião e a terra onde nasci – a Chapada Diamantina. Neste caso, confesso que intervi quase que tiranicamente em prol do interesses do meu coração. No fundo, eu sou uma boa pessoa.
E eis que a maior revelação da noite para os brasileiros de devoção irrepreensível estava ali feita: Deus era brasileiro, apesar de Belém não ser sua terra natal, não sendo natal de Belém de Judá, nem natal de Natal – RN. Isto posto, sua qualidade de onipresença nem parecia tão extraordinária, não obstante ele estivesse a todo o momento chamando milhares de querubins para enviá-los a incontáveis rincões do Universo na empreitada de conduzir a criação a seu contento. E já que Deus tinha se aberto tão francamente comigo – eu, um Zé Mané de mal com Deus e o Mundo – enchi-me de coragem, ou presunção, não sei, e lhe perguntei pronto para engolir um sapo ou tomar coisa pior, enquanto Deus Abria outro garrafão:
- Meu Senhor, já que não faço parte fundamental no plano da criação, e levo essa vidinha que não desejo nem aos meus inimigos, o que custaria a vossa divina providência acabar de vez com a minha raça, ou então dar uma forcinha para a minha vida melhorar, já que eu canto forte e alto(2).
Deus desviou o olhar do rótulo que tinha em mãos, apontou uma taça cheia de líquido rubro que por magia apareceu em minhas mãos cheias de um suor gelado que era fabricado no interior do próprio superego(3), ou não, e ordenou lacônico e brando:
-         Beba.
Tinha àquele momento o olhar lentificado e sonolento das madrugadas festivas e etílicas, e enquanto observava um Deus resmungando poemas de Caeiro ou dos irmãos Campos, sorvi do vinho que estava na taça e notei que era um Concha Y Tóro. E Deus, sorrindo, me disse apoiado em Miguel:
-         Incentivemos a Indústria vinícola latino americana!
 

E, ao som de Margareth Menezes, Deus começou a dançar e rodopiar acompanhado de anjos negros masculinos, músicos, que tocavam instrumentos da percussão afro-brasileira, carros alegóricos com mulheres fantasiadas de seres da mitologia indígena, um trio elétrico onde Lennon e Harrison tocavam guitarra e cantavam e anjas adolescentes requebrando com sensualidade erótica e muito humana logo à minha frente, uma das quais parecida com uma morena que conheci na sexta série, mas que nunca consegui conquistar, e que involuntariamente puxei para dançar comigo, até que começamos a nos beijar, e nos despindo, fizemos amor ao lado da sarça que agora eram somente brasas, e adormecemos abraçados ali, sendo que acordei uma hora depois, verificando que a música havia cessado, a bebida havia acabado, o fogo inexistia e estavam todos desacordados, inclusive Deus. Então saí daquele lugar e fui ver o dia nascer do alto de uma colina.    


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(1) Este conto foi gestado há uns 10 anos com o intuito de participar de um concurso. Não me lembro se enviei, mas se enviei, não ganhei, portanto ele era inédito até agora.

(2) Referência ao pagode de Martinho da Vila – “Canta canta, minha gente” (N.A.)

(3) “ Superego: é a parte do psiquismo que impede, ameaça, pune, produz inibições e ansiedades, todas as vezes que o Ego se dispõe a aceitar os impulsos do Id” Nuttin, J. Psicanálise e Personalidade, ed. Agir. 1967.” (N.A.)


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